Como denominar uma espécie fóssil.

Postado por Jorge no dia 30/05/2011.

Quando nos deparamos pela primeira vez com a descrição de um fóssil, o que invariavelmente nos chama a atenção é o nome dado pelos cientistas. Por vezes, ele soa como impronunciável. Surge, então, a pergunta: Por que um nome tão complicado?

As espécies pré-históricas seguem regras internacionais de nomenclatura que visam uniformizar o reconhecimento no meio científico.

O nome científico é escrito de forma diferenciada do restante do texto. É basicamente binomial: o gênero, em letra maiúscula, é seguido pela espécie, em letra minúscula. Em Tyrannosaurus rex, por exemplo, o primeiro termo (em letra maiúscula) é o gênero, enquanto o segundo termo (em letra minúscula) é a espécie. Em se tratando de seres do passado, muitas vezes o gênero é formado por uma única espécie.

Além disso, a identificação científica é seguida do nome do autor e do ano em que se deu a descrição. Por exemplo, em:

Helicocrinus plumosus Chapman 1903, temos:

1. nome científico: Helicocrinus plumosus (lírio-do-mar do Siluriano).

2. autor: Frederick Chapman (1864-1943), paleontólogo inglês.

3. ano da descrição: 1903.

As espécies viventes seguem o mesmo padrão. Todavia, para elas, são atribuídos nomes "populares" em cada língua, que facilitam o reconhecimento pelo público em geral. As pessoas, por exemplo, sabem o que é uma cascavel, mas poucos a reconheceriam em Crotalus terrificus.

O mesmo não ocorre com as espécies pré-históricas. Tyrannosaurus, no máximo, torna-se o aportuguesado "Tiranossauro" (embora, com o filme Jurassic Park, tenha surgido a expressão T-rex). Raros são os casos de nomes mais "populares", como ocorre em "tigre dente-de-sabre" (gênero Smilodon, aportuguesado "Esmilodonte").

Logo, o entendimento dos nomes pode ser facilitado se guardarmos os mecanismos de sua composição.

Uma espécie fóssil, ao ser descoberta, não recebe o nome de imediato, sendo este muitas vezes decorrente dos estudos de laboratório. Basicamente, na denominação, são utilizados radicais gregos e latinos, os quais derivam de um dos conceitos abaixo:

1. característica física: o nome indica uma característica marcante do fóssil.

Exemplo: o nome Cynognathus vem do grego e significa "mandíbula de cão". Este cinodonte (réptil com características de mamífero) do Triássico, encontrado na Argentina e na África do Sul, tinha dentes semelhantes aos cães e era um ágil caçador (possivelmente de sangue quente, como os mamíferos).

2. local da descoberta: o nome revela onde o fóssil foi encontrado.

Exemplos: Germanodactylus ("dedo da Alemanha") foi um pterossauro do Jurássico encontrado naquele país europeu. Araripesuchus ("crocodilo do Araripe") foi um crocodilomorfo cuja primeira espécie descrita viveu na região do Araripe.

3. escala: o fóssil é identificado dentro de sua classe ou de sua ordem.

Exemplos: Eomaia ("mãe da alvorada") refere-se ao mais antigo ancestral dos placentários (daí o termo "alvorada"). Gigantopithecus ("macaco gigante") é o maior primata conhecido.

4. homenagem: o nome homenageia o descobridor do fóssil, alguém a ele ligado (como filhos), alguém que, de alguma forma, auxiliou na descoberta (como patrocinadores), um ser mitológico / folclórico, etc.

Exemplos: Sivatherium ("besta de Shiva" ? divindade hindu) Arambourgisuchus ("crocodilo de Arambourg", uma homenagem ao paleontólogo francês Camille Arambourg).

Radicais de outras línguas (além do grego e do latim) também são empregados. Ademais, as regras não são excludentes (mais de uma regra é seguida na composição do nome científico). Por exemplo, em Unaysaurus tolentinoi (dinossauro que viveu no Brasil durante o Triássico), etimologicamente temos:

- gênero: tupi unay ("água negra") e grego sauros ("lagarto") - uma referência à região de Água Negra (RS) onde o fóssil foi encontrado.

- espécie: homenagem ao aposentado Tolentino Flores Marafiga, que descobriu o fóssil.

Quando um nome é atribuído a um fóssil não formalmente descrito na literatura científica, ele é um nomen dubium (do latim, "nome duvidoso"). Isso não significa que a espécie não exista, mas que não se pode dizer muito sobre ela com confiabilidade, já que outros cientistas não tiveram a oportunidade de verificar a pesquisa do descobridor. Nesse caso, o nome é colocado entre aspas. Um exemplo é "Kunmingosaurus wudingensisu", saurópode do Jurássico chinês, cujo esqueleto foi montado a partir de alguns ossos desarticulados encontrados em 1954. O animal ainda não foi descrito cientificamente.

Foto: fóssil de Mariliasuchus. O nome significa "Crocodilo de Marília" (região onde o fóssil foi encontrado).


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Fonte: Próprio do Autor



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